Não existe digital sem energia: o dilema climático da era 5G
O 5G está reescrevendo as regras do jogo. Mais do que um mero upgrade de velocidade, ele é o alicerce para uma economia hiperconectada. Estamos falando de cidades inteligentes, veículos autônomos, telemedicina em tempo real e indústrias com um nível de automação nunca antes visto. Todos esses avanços dependem, inevitavelmente, de uma rede robusta, capaz de lidar com volumes massivos de dados e, o que é crucial, oferecer baixa latência.
Entretanto, em meio a essa empolgação tecnológica, surge uma questão fundamental e incômoda: Como sustentar tamanha hiperconectividade sem, ao mesmo tempo, aumentar drasticamente nossa pegada de carbono?
O Salto Energético da Digitalização: O Alerta dos Data Centers
É um fato inegável que cada grande salto tecnológico vem acompanhado por uma disparada na demanda por energia. Afinal, para processar e transmitir dados em alta velocidade, precisamos de infraestrutura que exige eletricidade 24 horas por dia.
Um dado que serve de alerta para a magnitude do desafio está nos data centers, os verdadeiros “cérebros” da nossa era digital. Conforme um relatório de 2025 da Agência Internacional de Energia (IEA), esses centros de processamento consumiram cerca de 415 TWh em 2024, o que equivale a aproximadamente 1,5% do consumo global de eletricidade. Além disso, a IEA projeta que esse consumo continuará a crescer exponencialmente, impulsionado pela expansão da Inteligência Artificial (IA), das redes 5G e de todas as aplicações em nuvem.
Portanto, a lição é clara: não basta construir mais antenas e fibras ópticas se a energia que sustenta essa rede ainda for proveniente da “velha conta de carbono”.

A Oportunidade Brasileira: O Papel das Fontes Renováveis
Neste contexto, o Brasil apresenta um cenário promissor. Em primeiro lugar, um dado impressionante da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) revela que a matriz energética do país avançou 10.853,35 MW em 2024, um número recorde. O mais relevante, no entanto, é que 91,13% dessa nova capacidade instalada provém de fontes solar e eólica.
Isso demonstra que a transição energética brasileira tem conseguido, até o momento, um aporte renovável dominante. Consequentemente, esse movimento se alinha perfeitamente com a ambição de construir uma rede 5G e de infraestrutura de TI mais sustentável.
Redefinindo a Infraestrutura: Energia Como Estratégia Crítica
Se a conectividade é, nos dias de hoje, uma infraestrutura tão crucial para o desenvolvimento quanto estradas e portos, então a energia que a alimenta deve ser pensada como parte do mesmo projeto estratégico de futuro. A solução não se resume a um simples clichê de “fazer mais com menos”. Na verdade, o desafio vai muito além da mera substituição de combustíveis fósseis por renováveis.
Em outras palavras, trata-se de redesenhar fundamentalmente a forma como a eletricidade é consumida, armazenada e distribuída, considerando um cenário de tráfego de dados exponencial.
A Inteligência Energética do 5G
É justo ressaltar que a tecnologia 5G tem uma vantagem inerente: ela é mais eficiente por gigabyte transmitido do que as gerações anteriores. Ainda assim, o aumento massivo no número de antenas, dispositivos e novas aplicações exige que essa eficiência seja complementada por uma inteligência energética sofisticada.
Para ilustrar, isso significa:
- Integrar fontes renováveis distribuídas diretamente à rede de telecomunicações.
- Adotar tecnologias avançadas de armazenamento (como baterias de alto desempenho) para garantir resiliência e evitar interrupções.
- Investir em soluções de smart grid que mantenham a rede estável e eficiente, mesmo em picos de estresse.

Conclusão: O Paradoxo e a Responsabilidade do Futuro
O paradoxo da hiperconectividade é fascinante: ela é a maior demandante de energia, mas, ao mesmo tempo, pode ser a maior ferramenta para a sustentabilidade. Por exemplo, o 5G pode otimizar rotas logísticas, automatizar processos produtivos para reduzir desperdício e permitir serviços digitais que substituem deslocamentos físicos.
No entanto, para que todo esse potencial de redução de emissões se concretize, a base energética da rede precisa ser sólida, limpa e confiável.
Se queremos que a Era 5G e as inovações que virão depois sejam lembradas não apenas pela velocidade vertiginosa, mas também pela responsabilidade ambiental, devemos aceitar uma verdade inegociável: Não existe mundo digital sem energia. A rede do futuro só fará sentido se estiver firmemente ligada não só a antenas e cabos, mas também ao compromisso com um planeta habitável para as futuras gerações de usuários.